Tendo a concordar com o
Eduardo. Embora, como ele, não deixe de me rever na opinião do
Boss,
Miguel ou
Cris. Repudia-me o "porque sim" porque esvazia a diversidade de argumentos em que assenta o Sim, de entre os quais, obviamente, o direito ao corpo e a exigência, digamos, de um útero anarquista e laico. As mulheres, pelo papel da maternidade, podem passar uma vida inteira sobre a tutela de um Estado com um rosto masculino. Para esse Estado, que é um reflexo da sociedade em que vivemos (e esta às vezes muda a um ritmo mais célere) a mulher será mãe. Mais cedo ou mais tarde. Primeiro, cabe à mulher zelar para que possa ser mãe (por exemplo, muitos discursos médicos sobre os disturbios alimentares - e.g. bulimia e anorexia - nas mulheres não passa pelo direito à sua saúde, mas pelo dever de se preservarem de consequências gravosas para o seu futuro papel de reprodutoras). Depois, estando grávida, a mulher deve alterar todas as práticas danosas à gravidez (porventura deixar de trabalhar). Finalmente, cabe-lhe ser boa mãe e há um conjunto de preceitos sociais e legais que zelam por isso mesmo. Não ser mãe implica, pois, que se pense a mulher, no seu direito ao corpo e à sexualidade, em moldes que não consubstanciam um mero ser reprodutor. E isso baralha muita gente e ao baralhar atenta contra a dignidade das pessoas, neste caso, das mulheres. Não é, pois, de estranhar que o Não, em caso de dúvida, opte pela segurança do feto, e não da mulher, uma pessoa já constituída, com direitos adquiridos. Neste discurso é claro, como diz o Miguel, que o
útero não é da mulher, o útero é do inquilino (o feto) e/ou do propietário - o estado, a Igreja, a sociedade..
Agora, sejamos estrategas. Não o fomos em 1998. Não temos de abandonar o feminismo, a diversidade de argumentos, a exigência do direito à escolha, do direito à sexualidade, da dignidade das mulheres, que não são criaturas ocas que necessitam que o Estado e a sociedade as obrigue à maternidade responsável. Nem tão pouco temos de ser condescentes com um silêncio que nos envergonha ou com uma timidez de nos constrange. Temos de lutar, mas,
concordo, devemos saber os públicos a quem nos dirigimos. Só vamos ter este momento para saber ter essa sensatez. E as mulheres agradecem que o façamos. Aquelas, as tais, que podem ser julgadas. É que se o Não insiste em desviar o discurso para questões que não estão a ser referendadas, também nós não o devemos fazer. O que nos é pedido é simples. Falar da despenalização / penalização das mulheres que interrompem uma gravidez até às dez semanas. O que nos anda atravessado há anos para reivindicar, para gritar, os direitos que achamos não dever ter de lutar mais por eles, porque constitucionalmente consagrados e que, por isso, deviam ser efectivamente aplicados, não tenhamos dúvidas, vão continuar presentes no quotidiano de cada um/a de nós. Mas, se não podia concordar mais com o que diz o Boss,
"O que falta é arrastar esse Sim até às urnas", tenho dúvidas quando afirma que "
o que falta é fazer campanha, seja qual for o formato ou discurso". O discurso deve existir, a campanha sem dúvida, e acho inclusive que se podem abordar vários aspectos (desde que não entrando em questões desnecessárias, as únicas de que fala o não, como, por exemplo, onde começa a vida). Contudo, imagens de mulheres envergando uma t-shirt, aos pulos e sorridentes, com a inscrição "eu abortei", ou "voto sim, porque sim", não só faz perder os indecisos, como torna alguns "sins" indecisos. (Recentemente estive num evento do sim, virado para pessoas do sim, e o discurso facilitista de alguns oradores em relação a esta questão teve um efeito contraproducente. ) A campanha deve ser pensada, cuidada, esforçada e agressiva... Deve ser agregadora e não fracturante. E acho que está a ser e que irá ser. Não devemos, ainda assim, contar com facilitismos ou com o apoio do Governo - O Governo vai-se empenhar tanto nesta discussão como no seu esforço para mudar a lei em Assembleia da República. Não podia concordar mais com o Miguel, mas, em última análise, defendo isto "
o que está aqui em causa é as pessoas perceberem o que é uma campanha, para que serve, a quem se dirige, que objectivos pretende atingir", porque não me apetece nada ter de esperar por 2012.